A droga que vem assolando o país, sendo manchete de jornais e está fazendo famílias reféns de seus entes usuários e os usuários envolvidos com crimes como, furtos, roubos e assassinatos.
O retrato da destruição que tomou conta dos dependentes do crack chegou a Muriaé e arrasta principalmente adolescentes, que largaram estudos, a convivência com seus familiares e estão pelas ruas, dependendo de ajuda, de esmolas, de comida dada pelos outros, dormindo ao relento, sem banho e principalmente sem dignidade.
Um dos exemplos negativos dessa destruição é um adolescente, que vamos chamar de W, 14 anos que amanheceu a segunda-feira (29), na porta de uma padaria no centro da cidade, a espera de alguém lhe dar um café, pois na noite anterior, foi espancado por três irmãos, adolescentes, também infratores, que por motivos de envolvimento com drogas e furtos, lhe juraram de morte e ele foi expulso do bairro onde morava com seus pais.
Na entrevista com um adolescente, usuário de drogas e que pratica furtos pela cidade, ele revelou que desde os seis anos é usuário de drogas, como maconha, que usa até hoje e crack, que disse estar tentando se livrar, mas que hoje na sua vida não tem muito que fazer, não tem expectativa de mudança.
Com quantos anos você conheceu esse mundo de drogas?
W – Aos seis anos já andava na rua, no meu bairro e fumava maconha. As pessoas me davam escondido, daí eu sabia que não era certo
E depois você foi usando por conta própria?
W – Quando dava vontade eu pagava as coisas para vender ou trocar por droga
E hoje como você faz?
W – Eu aprendi que tem que roubar mesmo. Roubo e vendo, cada pedra de crack custa R$ 10,00 reais. E eu vendo as coisas para comprar e comer alguma coisa.
Você está todo machucado, o que aconteceu?
W – Ontem lá no morro os irmãos me pagaram. Eles gostam de confusão e me bateram e falaram para eu não voltar mais lá. Agora vou morar na rua, se não eles me matam lá.
E o que você pensa em fazer da vida?
W – Vou morar pela rua. Uma dona me prometeu emprego na gráfica da FEBEM e disse que posso estudar. Vou esperar por isso, porque minha vida é essa mesmo.
Após falar isso o adolescente atravessou a rua e se juntou a outros que estavam dormindo sob uma marquise, também no centro. Todos usuário de crack, que andam pelas ruas da cidade, pedindo dinheiro, furtando para revender e comprar mais drogas.
Em uma entrevista há cerca de um mês, o promotor da Infância e do Adolescente, Spenser dos Santos Ferreira explicou que no Ministério Público, foi instaurado um inquérito civil, cujo objeto é apurar o tratamento dispensado a população infanto juvenil, envolvida com drogas. “O que nós temos observado é que existe um número especifico de crianças e adolescentes, que em razão do envolvimento com as drogas tem praticado uma série de ilícitos, mas que se justificam, na razão deles, para manutenção do vício. Identificado esta situação, o Ministério Público, tem tentado junto com o poder público, conversei com a senhora Eveline, secretária de desenvolvimento social, com o Dr. Marcos Guarino, secretário de saúde e com a Assistente Social Graziele dos Santos Fortini para tentar expor a eles esta preocupação do ministério, com este crescente aumento de atos criminais aqui no município, e da necessidade de empenho do poder público, sobretudo do poder público municipal em buscar uma solução para este problema”, disse o promotor.
A solução sugerida pelo MP foi à criação de centros de reabilitação, específicos para a população infanto juvenil, sendo uma unidade que ofereceria tratamento, em regime de internação para os menores, porque as clínicas da região que estão conveniadas com o município não estão conseguindo resolver o problema, já que fazem tratamento com adultos.
Após essa reunião, outras aconteceram e o MP, junto à administração municipal e várias entidades estão chegando a um projeto que visa o tratamento em diversas áreas para pelo menos os 11 adolescentes que estão diretamente envolvidos com drogas e furtos, na tentativa de reintegrá-los a sociedade, com educação, saúde, estrutura psicológica.
























Atualmente, as drogas constituem, sem dúvida, a minha maior preocupação, porque a dependência de um filho torna toda a família dependente. E os pais não estão conscientes da gravidade da situação. As drogas são assunto rotineiro nos colégios – não conversas construtivas, mas conversas sobre o quê, como e onde conseguir e consumir. Os pais de hoje – uns por omissão, outros forçados pelo sistema – estão sendo assassinos de seus próprios filhos, deixando-os consumir bebidas alcoólicas com menos de quinze anos. E a bebida alcoólica é o caminho natural para o uso de drogas mais pesadas no futuro. Participei da fundação da El Shaday e lá trabalhei por mais de sete anos. O descaso das autoridades e da sociedade é vergonhoso, e as prioridades dos investimentos públicos hoje se encontram às avessas: priorizam-se as coisas – muitas delas supérfluas –, em detrimento da própria vida. O trabalho de prevenção é muito mais importante do que o trabalho de recuperação. Apenas recuperar não resolve, se o ingresso de novos dependentes aumenta a cada dia. O problema é que, sob alguns aspectos, prevenir é muito mais complexo do que recuperar, pois a prevenção está ligada a um conjunto de ações que o Poder Executivo não tem interesse ou competência para implementar. Refiro-me aqui à geração de emprego e renda, moradia, saúde, educação, etc. Ou seja, tudo aquilo que deveria estar estrategicamente contemplado no planejamento da cidade, conforme determina a Lei nº 10.257, de 10.07.01, denominada Estatuto da Cidade. Hoje, praticamente a totalidade dos pais está preocupada com a “educação” dos filhos – uma educação para competir e vencer, mesmo que seja pisando na cabeça dos outros. E, hipocritamente, os encaminha às igrejas com a recomendação de que “amem ao próximo como a si mesmos”. O objetivo é tornar o filho um vitorioso, e não uma pessoa feliz. Erroneamente, as pessoas atrelam poder e sucesso financeiro à felicidade. Que fazer? Palestras educativas nada resolvem. Já fiz várias. De que adianta falar – como fiz certa vez numa escola — das conseqüências das drogas para uma menina de onze anos que, ao chegar a sua casa, encontra o pai embriagado e o único irmão traficando. Enquanto falávamos nas salas de aula, esta menina se drogava no banheiro. A diretora nos chamou para conversar com ela: Eu a olhei, estava abatida e ainda sob os efeitos da maconha que havia fumado, deu-me vontade de chorar, pensei em meus filhos, senti-me impotente, não me lembro do que lhe disse. Hoje talvez, para não ser ridículo, em me calaria e, em silêncio, rezaria com ela, pedindo a Deus que tivesse pena de sua alma. Saí da escola; no “nosso” mundo, tudo continuava como se aquela menina não existisse, ou seja, com as pessoas correndo no piloto automático e embriagadas com as coisas da vida, conforme disse Cristo. Será que aquela menina ainda está viva? É quase certo que tenha abandonado os estudos e se prostituído. Já se passaram mais de cinco anos. Somente agora me recordo dela e uma dúvida me vem à mente: “Será que eu poderia ter feito algo mais”?
A guerra contra as drogas tem que ser enfrentada por toda a população. Mas como unir a população? Tenho observado que, tirante as festas, as pessoas responsáveis e tementes a Deus somente se reúnem em velórios. A solução está na cidadania e na participação nos negócios públicos – algo que as escolas não nos ensinaram e não estão ensinando a nossos filhos. Em resumo, “se não priorizarmos nossas obrigações cívicas em relação a nossos direitos individuais, não deveremos nos surpreender se encontrarmos nossos próprios direitos individuais solapados” ou as vidas de nossos filhos estraçalhadas pelas drogas.
Coloco-me à disposição para ajudar no que for possível.
JOSÉ ANACLETO DE FARIA
Tel.: (32) 8861-3361
E-mail: asenp.anacleto@oi.com.br