Decisão absurda em prol da barragem Barra da Braúna em Laranjal fere os direitos humanos

 

fotinho-40A população reclama de indenizações pagas inadequadamente, do não cumprimento do plano de reativação econômica dos atingidos pela barragem e também da contaminação da água consumida pela população.

A água invadiu os terrenos, destruiu as plantações, matou o gado, sucumbiu com casas e deixou 115 famílias sem amparo, abrigo e sem um caminho certo para seguirem a vida. Todos estão se sentindo lesados pela empresa Brascan, que destruiu por completo o patrimônio de terras de cada um, em detrimento a uma barragem, construída em território que compreende as cidades de Laranjal, Palma e Recreio, deixando a maioria dos moradores sem sua forma de rendimento.

dsc_00241No início, em 1997 o local foi parcialmente ocupado por uma empresa, com a intenção de gerar energia e melhorar assim a forma de vida dos moradores e proprietários de terras da região. Mas desde junho de 2009 os moradores começaram a se sentir pressionados pelos representantes da antiga Brascan Hidrelétrica, “Consórcio Barra da Braúna”, hoje Brukfield, multinacional com matriz no Canadá que pagou no início os valores justos pela terra para alguns proprietários que, na maioria são ligados diretamente a políticos da região e deixou o restante ou com pouco dinheiro ou sem nenhum acordo.

Os moradores criaram uma associação para defender seus direitos e daqueles que perderam seus empregos devido às falsas promessas feitas pelos representantes da empresa, como por exemplo, as pessoas que trabalhavam em um areal na região, e tinham um ganho médio mensal de R$3 mil reais e agora estão desempregados, mas com documentos constando que são proprietários de uma cooperativa de extratores de areia, em um local desconhecido.

“Eu não estou podendo ficar nem dentro de casa, tenho medo de sair e aparecer cobrador, pois não tenho como pagar minhas contas; a minha mulher chegou a tomar remédio para morrer, nós ficamos de mãos e braços quebrados, foram apenas promessas, promessas e nada mais. Desde o início que eu estou correndo atrás deste negocio, porque eu sabia que ia dar errado, eles me indenizaram, mas também sofri ameaças tipo: “Ou você aceita ou vai ser pior”. Eu estou até hoje com as minhas contas atrasadas, porque eles só pagaram pela casa, mas nós tínhamos um pedaço grande de terra onde plantávamos de tudo e dava para o ano todo. Agora eu to morando na cidade, onde nem eu nem minha família temos costume. Lá quando eu saia de casa, estava dentro do areal para trabalhar, trabalhava duas três horas e voltava para casa, eu tinha uma vida boa, graças a Deus, mas hoje em dia eu estou até desanimado para viver. Eu já cheguei a conversar com eles chorando, falando para eles acertarem tudo comigo que eu ia pegar o dinheiro e sumir para um lugar que tem serviço de areal, porque é a única coisa que eu sei fazer na vida”, disse Daniel da Silva, 36 anos que trabalhava há 14 anos no areal, e ganhava em torno de R$3 mil por mês.

 A situação se agrava cada vez mais, diante da falta de recursos de todos os ex-moradores que nem tiveram tempo de contabilizar as percas matérias, já que a maioria teve casas e pertences perdidos pela inundação das águas, onde hoje fica a represa.

Segundo José Montes Duarte, 53 anos, conhecido na região como José Fotinho, faziam 26 anos que era dono da propriedade e desde junho de 2009 começaram as pressões. “De repente chegaram com uma emissão de posse da 13ª vara e foram destruindo tudo. Em Muriaé o Juiz Dr. Vitor tinha negado, ai foram em Belo Horizonte e quando conseguiram ganhar, chegaram nas nossas terras com oficiais de justiça, polícia e tiraram todo mundo. Um senhor que tinha 23 anos que trabalhava comigo foi tirado algemado e na marra da casa dele e quando voltamos de uma viagem, a  casa dele já estava no chão”.

Segundo, ainda José Fotinho, o governador Aécio Neves tomou a medida de tirar a liminar, e colocar a empresa alegando que é de produção de energia, enriquecimento do país e arrecadação do estado de Minas Gerais. “E para ele o trabalhador que planta e cria não merece atenção? Em um documento dado pela empresa, está determinado que as pendências estão todas sanadas e na verdade tem 115 famílias sem ter nem onde morar”, concluiu José Fortinho.

Todos os envolvidos nessa situação estão sem uma definição de vida, já que a maioria vivia da terra e hoje nem casas têm. Segundo os associados até o Conselho Municipal de Assistência Social, está em favor da empresa, pois só o município ganhou com essa atitude.

 

Paulo Machado Carneiro, 75 anos “Se o senhor não pegar o valor que nós dermos, vamos entregar pra justiça e com 15 dias eles me entregam sua propriedade e nós vamos destruir ela. E com isso perdi 88 sacos de arroz que colhia, trezentos pés de jabuticaba e várias outras plantações que fiquei sem nada. Eles meteram motosserra em tudo e usaram as árvores para fazer pinguela. Meus funcionários estão sem ter o que fazer. Tenho um irmão que assinou os papeis e até hoje não recebeu nada”.

 

Sebastião Martins Duarte, 78 anos “No dia que fui ao escritório eles me ofereceram um dinheiro e falaram para eu não dizer nada a ninguém, para eu poder ganhar um valor razoável e os outros ficariam com as sobras. Mas como eu estou vendendo o que é meu, eu falei com eles que iria falar para todo mundo. Após uns dias voltei lá, mas não deu para fazer nada, e na outra vez a assistente social daqui de Laranjal também foi e eles fizeram uma oferta. Procuramos ver se entendíamos o que eles estavam querendo propor, e a assistente social ficou lá, acabando de acertar com eles porque tínhamos que vir embora. Quando foi a noite, ela nos ligou, falando que mais ou menos a coisa daria certo do jeito que nós pedimos, mas disse que somente na outra semana que o pessoal voltaria. Passada mais uma semana eles vieram com uma emissão de posse, intimando todo mundo, eu fiquei até doente; no dia que eles vieram quebrar o que eu tinha, nós fomos no sitio vizinho e quando chegamos lá encontramos uns 15 policiais quebrando tudo, falaram que iriam algemar meu filho que estava lá tirando leite, e foram derrubando tudo mesmo. No meu sítio tinha gado, tirava 150 litros de leite por dia, tinha uma capineira que tratava 120 cabeças de gado o ano inteiro, tinha uns coxos por fora, tinha o barracão da picadeira, o galpão onde eu tirava o leite, tudo arrumadinho, ai eles quebraram tudo, depois veio a água da barragem e cobriu tudo…eu fiquei sem nada”.

 

 

 

Reinaldo Barberini “Nós começamos a acompanhar este caso de agosto de 2009 para cá, já sabíamos que tinham vários problemas, sabíamos do impacto ambiental que ia causar, mas a princípio, a empresa faz uma propaganda muito grande, bem feita, convincente, mostrando que ia ficar tudo às mil maravilhas, que era para o desenvolvimento do local, com geração de empregos. Prometeram que iriam indenizar todo mundo, que as famílias não seriam prejudicadas, mas nós sabemos que isto é propaganda enganosa; e o que acontece é que as famílias estão ai sem indenizações, sem assistência, sem o ressarcimento de suas perdas e danos. Então a CPT começou a acompanhar, fizemos algumas denúncias no estado, no COPAN regional da Zona da Mata, também na Assembléia Legislativa, a partir do que nós vimos. Agora estamos acompanhando todos os casos, fazendo reunião, tendo o trabalho de advogados para tentar, de alguma forma resolver o problema dessas famílias que foram diretamente prejudicadas, além daqueles que trabalhavam na região e perderam seus empregos e hoje estão sem um direcionamento”.

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